Manú anda com um quê de ruiva. Nunca na vida poderia imaginar ter uma filha ruiva (tudo indica que o castanho prevalecerá, mas que por enquanto tem um arzinho de ruiva, tem, olhe só a foto aí).
Pensando nessa pequena excentricidade da mocinha, lembrei de uma coisa que passava muito pela minha cabeça na época da gravidez e agora, com a Manú aí, anda meio esquecida.
Nas cem milhões de vezes em que eu ficava imaginando quem era essa pessoinha que estava crescendo dentro de mim, me vinha o quanto eu não tinha o menor controle sobre isso. Com exceção de alguns extremos (um negão ou uma japa certamente dariam causa a um divórcio aqui em casa!), qualquer, absolutamente qualquer, "tipo" de pessoa poderia estar ali germinando em mim. Não só fisicamente, mas, principalmente e muito mais importante, em termos de personalidade, jeito de ser, gostos, talentos, fraquezas, problemas, até caráter. Claro que a criação da gente faria muitíssimo por ela; mas com certeza grande parte das suas tendências viria mesmo é de fábrica.
Tentava, então, concatenar este fato com outro, muito certo de acontecer também: o de que eu seria louca de amor por essa criatura "x", fosse quem fosse. Até se for chata, ranzinza, puxa-saco? Arrogante, fútil? Preconceituosa, vazia? E se detestar viajar, fazer amigos, ser mentirosa, egoísta? Não, não é possível que esse amor vá ser tão incondicional assim quanto dizem... Sim, é possível, não havia dúvida: minha filha - qualquer filha - seria um dos grandes amores da minha vida.
E aí me vinha isso de que um dos maiores "serviços" que essa criança já estava me fazendo era o de me abrir pra um amor e uma tolerância muito maior para com o gênero humano em geral; me ajudar a fazer de vez uma ligação direta entre humano = digno de amor, e ponto, sem mais as premissas dos qualitativos e medições.
Imagine só, essa menina antipática e estressadinha aí da porta ao lado, minha filha bem pode vir a ser igualzinha a ela. A que trabalha comigo e eu não vou com a cara de jeito nenhum. A chefe que eu não suportava. A idiota que me fechou no trânsito. A amiga que me alfineta me tachando sempre de louca de um jeito malicioso. A irresponsável. A ríspida. A ministra que rouba dinheiro público no cartão corporativo. Ainda que me ocorra "a Manú não vai ser assim, a gente vai tentar ensinar isso a ela, dar o exemplo daquilo", no fundo sei que mesmo as "melhores" educações podem dar muita zebra e que então qualquer dessas pessoas poderia muito bem sair da minha barriga.
E sendo minha filha, certamente eu iria amar e tolerar de toda maneira. Aliás, tirando os casos mais raros de séria negligência, mesmos as pessoas mais "erradas" do mundo têm/tiveram essa personagem central na vida, a mãe (ou quem quer que lhe tenha dado esse amor primeiro que nos estrutura); todas foram enxergadas, são enxergadas, por alguém(ns) para além de suas imperfeições e barbeiragens. Esse olhar diferente sobre elas existe em algum lugar. E saber disso faz com que automaticamente a gente as espreite um pouquinho desde esse ângulo mágico de suas mães, o ângulo de um amor maior.
Pode-se pensar que a mãe está tão egoicamente atada ao filho, que, pra não se desintegrar, cega-se à sua natureza, varrendo todo o lixo que vê bem pra baixo do tapete. Pode ser. Chuto, no entanto, uma hipótese mais "polianesca": quem sabe às mães (e pais - leia-se sempre), ao ser dada a hercúlea tarefa de tocar vidinhas pra frente, também não é dada, como instrumento para tanto, uma compreensão da natureza humana mais integral, rica e profunda do que a que rola aí na lógica rotulante e classificatória desse nosso mundinho. Uma compreensão que escancara as asas destes homens e mulheres pra que, debaixo, venha a caber qualquer pessoa: pretinhos, moreninhos, amarelinhos, branquelinhos... e ruivinhas! (=